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    Cultura

    Morre o artista plástico Daniel Azulay, aos 72 anos, vítima de coronavírus

    Por Núbia Dourado28 de março de 20206 minutos de leitura

    Desenhista estava tratando uma leucemia e contraiu a Covid-19, segundo seu perfil nas redes sociais

     

    Morreu na noite desta sexta-feira, no Rio, o artista plástico, desenhista e educador infantil Daniel Azulay, aos 72 anos. Segundo uma publicação em sua página no Facebook, Azulay tratava uma leucemia e contraiu o novo coronavírus. Ele estava internado na Clínica São Vicente, na Zona Sul, que confirmou a morte.

    “Com extremo pesar comunicamos que nosso querido Daniel Azulay faleceu no Rio de Janeiro. Ele estava tratando uma leucemia e contraiu corona virus. Sua alegria continuará em todos nossos corações para sempre. Faremos rezas virtuais para ele nos próximos dias em virtude do isolamento. Daniel, Te amamos!”, diz o texto publicado nas redes do artista.

     

    Muito popular entre meados dos anos 1970 e início dos 1990 por programas infantis na TV, ele foi o criador da Turma do Lambe-Lambe (completa 45 anos em 2020), inicialmente como tirinha do jornal “Correio da Manhã”. Ele foi responsável também por personagens como a vaquinha Gilda, a coruja Professor Pirajá e a galinha Xicória, e do bordão “Algodão doce pra você!”.

    Conhecido pelos ternos coloridos, os óculos arredondados e um sorriso inconfundível, Azulay ainda ajudou diversas crianças a desenvolver seus dotes artísticos, com a rede de escolas Oficina de Desenho Daniel Azulay e a fundação Crescer com Arte.

    Nascido no Rio de Janeiro, em 1947, Daniel Azulay foi criado em Ipanema, numa família judaica, filho caçula do advogado Fortunato e de Clarita, que fez desenho clássico em Paris.

    Ele era um desenhista autodidata, e assim tentava incentivar os pequenos a desenhar. Apesar de ter descoberto seu dom desde cedo, precisou cursar a faculdade de Direito, por imposição do pai. Durante as aulas, para passar o tempo, fez incontáveis desenhos, e decidiu que esse seria o seu ofício. Formou-se em 1969, mesmo ano em que começou a publicar suas primeiras histórias em quadrinhos e cartuns em revistas e jornais, inclusive “O Pasquim”.
    Referência nas artes plásticas, Azulay foi também empresário, apresentador e compositor. Tornou-se famoso ao apresentar durante mais de 15 anos a “Turma do Lambe-Lambe”, programa de TV educativo para o público infantil, transmitido pela extinta TVE e pela Rede Bandeirantes. Junto com o grupo de personagens que criou em histórias em quadrinhos, ensinou a desenhar e a construir brinquedos, influenciando principalmente as crianças que cresceram nas últimas décadas do século passado.
    Azulay lançou diversos CDs e LPs com as músicas da turma do Lambe-Lambe e uma série de CD-ROMs que estimulava a criatividade da criançada. Para expandir seus horizontes, ele criou, em 1992, sua primeira oficina de desenho, no Largo do Machado. O negócio se expandiu e conta com mais de dez unidades espalhadas pela cidade.
    — Não podemos esquecer que o desenho é importante para aprimorar a coordenação motora das crianças. Ele é indispensável. Quando desenha, a criança está dialogando com o seu interior; fica mais fácil para os pais conhecerem seus filhos — disse em entrevista ao GLOBO em 2017. — A criança nem precisa saber desenhar. O método é justamente para quem quer se expressar rapidamente através do desenho e desenvolver de forma rápida sua interpretação e o senso estético.

    Ao longo das décadas de trabalho, Azulay rodou o país ministrando palestras sobre arte e educação, e participou de diversas campanhas sociais, parte delas para o Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) e a Campanha de Ação da Cidadania Contra a Fome.

    — Sempre encarei meu trabalho de forma lúdica e solidária. Recuperar, pela arte, o interesse das pessoas para uma atividade construtiva é mais do que gratificante — disse ao GLOBO.

    Daniel Azulay deixa a mulher, Beth, com quem foi casado por mais de 35 anos, a filha Paloma e o neto Baruck.

     

    Fora da TV, um trabalho mais profundo

    Longe da TV, Daniel investiu toda sua energia em suas oficinas de desenho, no projeto Crescer com Arte para crianças carentes e no seu eu artístico mais profundo, levando para galerias de arte do mundo inteiro um trabalho moderno, que ele chamava de “imageria”.

     

    Uma produção múltipla, com forte inspiração na pop art, que vai do desenho às telas hiper-realistas. A grande virada foi com a “A porta”, uma tela gigante de 2,18m por 1,20m, concebida num momento obscuro, quando sua mãe morreu, em 2006.

     

    — Se as portas não se abrem, construa uma para você. Para mim, é a porta dos sonhos, das oportunidades. Tanto que eu a fiz entreaberta. Pela fresta, é possível ver o céu azul — disse ele ao EXTRA em 2013, ao lembrar que pintava na casa da mãe já muito doente para não deixá-la sozinha. — Acho que atravessei esta porta.

    Desde então, a “A Porta” virou livro com passagens da vida do artista, portfólio e exposição que, de 2007 a 2008, rodou pela Suécia, Finlândia e Nova York. Também expôs no Louvre e, no MoMA, deu uma consultoria sobre como fazer as crianças se aproximarem da arte.

     

    Antes da Xuxa, rei dos baixinhos

    Antes mesmo da Xuxa, Daniel já tinha seus baixinhos. Ele conseguia a façanha de fazer as crianças largarem a bola e a boneca, quando ainda não havia a febre dos jogos eletrônicos — o Atari só chegaria com força mais tarde —, e sentarem em frente à televisão para aprender a desenhar. Diante das câmeras, o “professor” ensinava o conceito de surrealismo de Dalí, desenhando um macaco dentro de uma caneca — “a arte nos faz voar” —, fazia surgir imagens de um pincel mágico, falava de fotografia e transformava uma caixa de ovos num jogo divertido. Foi um dos primeiros a usar a palavra reciclar na TV e, mais importante, a mostrar na prática a sua utilidade. O primeiro programa foi na TV Cultura e depois, em 1981, na Bandeirantes, a convite de Maurício Sherman. Um par de anos depois, o mesmo Sherman levaria Xuxa para a Manchete.

    As referências são muitas. Jackson Pollock, Andy Warhol, Ralph Steadman ou Saul Steinberg. Sem falar em Picasso, Miró, Dalí. Mas seu mentor artístico é Ziraldo. O jovem Daniel batia ponto no apartamento do cartunista no Lido, só para observá-lo trabalhando.

    — Aos 16 anos, ele já era um talento — disse Ziraldo ao EXTRA, em 2013. — Ele, o Miguel Paiva, e uns tantos outros que apareciam lá em casa. No início, faziam coisas parecidas com o meu Jeremias, o Bom. Depois, seguiam voo próprio. O Daniel, além de todo o mérito artístico que provou ter a vida inteira, é uma das melhores pessoas do mundo. É um absurdo de qualidades humanas. Eu brinco dizendo que é um anjo judeu.

    Pelas mãos de Ziraldo, fez um suplemento de humor no “Jornal dos Sports”. Depois, foi do “Pasquim”, “Jornal do Brasil” e “Correio da Manhã”. Na ditadura, ganhou um prêmio internacional de desenhos de humor na Grécia, mas a censura fez com que a obra só fosse conhecida anos depois. Ele já estava na mira do DOPS por causa de caricaturas de Che e Dom Helder Câmara. Era para a boutique de roupas descoladas de uma amiga, mas passou por subversivo. Daniel teve a própria grife, a Farfan. Ele namorava na época a modelo Vicky Schneider.

     
     

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