Espetáculo premiado nacionalmente realizou duas apresentações gratuitas no Teatro Sesc Palmas, além de oficina de dramaturgia e ações formativas voltadas à acessibilidade cultural
Muito além de uma apresentação teatral, um convite para enxergar, ouvir e reconhecer corpos, histórias e desejos que ainda enfrentam barreiras de representação na sociedade. Foi com essa proposta que o espetáculo “Meu Corpo Está Aqui” passou por Palmas, nos dias 10 e 11 de outubro, no Teatro Sesc, levando ao público tocantinense uma experiência artística marcada pela sensibilidade, pelo humor, pela emoção e por reflexões sobre afeto, sexualidade, autonomia e inclusão de pessoas com deficiência.
A circulação também promoveu atividades formativas na Universidade Federal do Tocantins (UFT), incluindo a oficina “Dramaturgia em Cena”, realizada nos dias 9 e 10 de outubro, e uma ação de sensibilização para a acessibilidade nos espaços culturais. A programação gratuita ampliou o alcance do projeto, reunindo apresentações artísticas, formação e intercâmbio de experiências com profissionais e artistas locais.
Vencedor dos prêmios FITA e APTR e indicado ao Prêmio Shell, o espetáculo tem texto e direção de Julia Spadaccini e Clara Kutner, direção de produção de Cláudia Marques e reúne no elenco quatro artistas com deficiência: Bruno Ramos, artista surdo usuário de Libras; Juliana Caldas, atriz com nanismo; Pedro Fernandes, ator com paralisia cerebral, com cognitivo preservado e usuário de cadeira de rodas; e Sara Bentes, artista cega.
A montagem parte das vivências pessoais dos próprios intérpretes para construir uma dramaturgia que mistura realidade e ficção. Em cena, histórias de relacionamentos, descobertas, desejos, frustrações e conquistas desafiam estereótipos e questionam a maneira como a sociedade enxerga os corpos das pessoas com deficiência, frequentemente associados à dependência, à invisibilidade ou à ausência de sexualidade.
Com uma linguagem que transita entre o humor, a delicadeza e a crítica social, a obra evidencia que o direito de amar, desejar, experimentar relações e fazer escolhas sobre o próprio corpo também precisa estar no centro dos debates sobre inclusão e cidadania.
Teatro que transforma olhares
Entre as pessoas que acompanharam a apresentação esteve a atriz tocantinense Cleuda Milhomem, que destacou a importância de produções capazes de provocar reflexões para além do palco. “É um espetáculo que nos atravessa de muitas maneiras. Como atriz e como espectadora, saio profundamente tocada pela potência desses artistas e pela generosidade com que compartilham suas histórias. A peça nos faz perceber o quanto ainda precisamos desconstruir preconceitos, especialmente quando falamos sobre amor, desejo e sexualidade das pessoas com deficiência. É um teatro necessário, que emociona, provoca e nos convida a olhar o outro com mais humanidade. Palmas precisava receber uma obra como essa”, destacou Cleuda.
A presença do espetáculo na capital também representa uma oportunidade de ampliar o diálogo sobre representatividade e protagonismo de artistas com deficiência nas artes cênicas brasileiras. Ao colocar suas próprias experiências no centro da narrativa, o elenco rompe com uma tradição de invisibilização e reafirma a importância de que pessoas com deficiência possam contar suas histórias, ocupar espaços de criação e exercer plenamente sua expressão artística.
Para o produtor local Justino Vettore, receber a montagem em Palmas significa fortalecer a circulação de espetáculos de relevância nacional e, principalmente, aproximar o público e os profissionais tocantinenses de novas perspectivas sobre a produção cultural acessível. “Receber ‘Meu Corpo Está Aqui’ em Palmas é uma conquista importante para a nossa cena cultural. Estamos falando de um espetáculo premiado, com uma dramaturgia potente e um elenco que rompe barreiras e transforma a maneira como compreendemos a presença das pessoas com deficiência no teatro. Mais do que trazer uma produção nacional, essa circulação possibilitou encontros, trocas de conhecimentos e reflexões fundamentais para artistas, produtores e para toda a sociedade. Precisamos de uma cultura cada vez mais diversa, acessível e representativa”, ressaltou.
Protagonismo e o direito de viver todas as experiências
Para a atriz Juliana Caldas, que integra o elenco, a circulação é também uma oportunidade de enfrentar preconceitos ainda presentes no imaginário social, especialmente aqueles relacionados à afetividade e à sexualidade das pessoas com deficiência. “Muitas vezes, a sociedade olha para uma pessoa com deficiência e enxerga apenas a deficiência, esquecendo que ali existe uma pessoa com sonhos, desejos, sentimentos, vontades e uma história inteira para contar. Nosso espetáculo fala sobre amor, sexualidade e relações humanas, mas também fala sobre o direito de existir plenamente, sem que outras pessoas determinem o que podemos ou não viver”, afirmou Juliana.
As duas apresentações contaram com recursos de acessibilidade, incluindo interpretação em Libras e audiodescrição, garantindo condições de participação a diferentes públicos. Os ingressos foram disponibilizados gratuitamente mediante a doação de um quilo de alimento não perecível para o programa Mesa Brasil, do Sesc. Após a apresentação de domingo, 11 de outubro, a programação também contou com um bate-papo com integrantes da produção e convidados, fortalecendo o diálogo entre artistas e público sobre os temas abordados pela montagem.
Acessibilidade para além do palco
Outra atividade da programação foi a ação de sensibilização para acessibilidade nos espaços culturais, realizada no dia 10 de outubro, também na UFT, sob a condução do produtor Fabrício Polido, com participação da atriz Sara Bentes. O encontro foi direcionado a equipes de equipamentos culturais, profissionais e instituições interessadas em aprimorar suas práticas de acolhimento e atendimento às pessoas com deficiência.
Entre os temas trabalhados estiveram orientações sobre acessibilidade motora, adequação dos fluxos de circulação em espaços culturais, introdução ao vocabulário básico de Libras, atendimento a pessoas com deficiência visual e cuidados específicos no acolhimento de pessoas com Transtorno do Espectro Autista (TEA). A proposta foi contribuir para uma compreensão mais ampla da acessibilidade, demonstrando que a inclusão depende não apenas de adaptações arquitetônicas ou recursos tecnológicos, mas também de atitudes, capacitação das equipes e reconhecimento das diferentes necessidades dos públicos.
Circulação nacional fortalece a democratização da cultura
Com produção da Fábrica de Eventos, o espetáculo “Meu Corpo Está Aqui” é realizado com fomento da Fundação Nacional de Artes (Funarte), entidade vinculada ao Ministério da Cultura do Governo Federal. A iniciativa reafirma a importância do investimento público em projetos que promovem a democratização do acesso às artes, a circulação de produções nacionais e a valorização de narrativas historicamente invisibilizadas.
Sobre o espetáculo
“Meu Corpo Está Aqui” tem texto e direção de Julia Spadaccini e Clara Kutner e direção de produção de Cláudia Marques. O elenco é formado por Bruno Ramos, Juliana Caldas, Pedro Fernandes e Sara Bentes, com participação de Jadson Abraão como ator/intérprete de Libras. A montagem tem direção assistente de Michel Blois, figurino e cenografia de Beli Araujo, iluminação de Paulo Cesar Medeiros, direção de movimento de Laura Samy, música de Luciano Câmara e visagismo de Cora Marinho. A produção é da Fábrica de Eventos, com fomento da Funarte/Ministério da Cultura.
Fonte: Cinthia Abreu

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