Durante reportagem do projeto Jovens Comunicadores da Amazônia, treinador relatou décadas de dedicação ao futebol e foi registrado escalando uma estrutura de ferro para entrar no estádio municipal
Na manhã de domingo (11), no Estádio Municipal Idalmir Martins, em Rio Sono, sete jovens atletas estava participando de um treino conduzido pelo senhor Guilherme, conhecido carinhosamente como “Véi Guilherme”. Prestes a completar 101 anos, ele continua compartilhando sua experiência e incentivando crianças e adolescentes por meio do futebol.
A equipe do projeto Jovens Comunicadores da Amazônia acompanhou a atividade e ouviu o treinador e seus alunos. A entrevista revelou uma trajetória de mais de três décadas dedicadas ao esporte no município, marcada pela formação de jogadores, pelo investimento de recursos próprios e pela busca por incentivo.
Uma vida dedicada ao futebol
Seu Guilherme conta que mora em Rio Sono há aproximadamente 50 anos. Chegou após comprar uma fazenda e, mais tarde, mudou-se para a cidade, onde se aproximou dos jovens que praticavam futebol e começou a organizar os treinos.
“Eu vi que tinha futuro eu treinar esses garotos, porque eram bons jogadores”, recorda.
Segundo ele, alguns atletas que passaram por suas equipes chegaram ao futebol profissional e disputaram campeonatos fora do Tocantins. Ao lembrar os antigos alunos, demonstra orgulho dos talentos que ajudou a desenvolver.
“Tinha muito jogador bom, bom, bom, bom de verdade, né? Jogador que saía pra fora, passava no teste que fazia”, afirma.
O senhor Guilherme também relata uma trajetória como jogador profissional antes de se dedicar ao futebol amador. Sua ligação com a bola começou ainda na infância: “Eu jogo bola desde o tempo de tampinha”, conta.

Recursos próprios e apoio de amigos
Para manter as equipes, o treinador afirma que já utilizou dinheiro do próprio bolso para comprar bolas e uniformes. Ao longo dos anos, também contou com contribuições de amigos.
Seu objetivo vai além de preparar atletas para competições. Ele vê nos treinos uma oportunidade de oferecer uma rotina de atividades, acompanhar os jovens e conversar sobre escolhas e cuidados com a vida.
“Eu sempre dou muito conselho para a garotada”, diz.
Entre as orientações, estão evitar o consumo de álcool, cigarro e outras drogas. Para seu Guilherme, a convivência no campo também faz parte da formação dos alunos.
Uma nova geração em campo
Atualmente, o treinador tenta organizar uma nova equipe para disputar competições de base. Ele reconhece potencial nos jovens, mas relata dificuldades para manter a regularidade dos treinos e reunir atletas nas faixas etárias exigidas.
Exigente com a preparação, considera a disciplina e o compromisso essenciais para o desenvolvimento dos jogadores.
Entre os alunos ouvidos pela reportagem está João Pedro, de 12 anos, que começou a treinar recentemente. Ele conta que vem aprendendo com as orientações recebidas. “É muito bom treinar com ele”, afirma.
Gustavo, de 13 anos, relata que participa dos treinos há cerca de três anos e percebe uma melhora no próprio desempenho. Ao deixar uma mensagem para seu Guilherme, resume: “Ele é um ótimo treinador”.
Famílias custeiam materiais de treino
Seu Guilherme reconhece que o município dispõe de um campo gramado e iluminado, mas considera necessário ampliar o incentivo às atividades esportivas. Ele defende uma mobilização entre poder público e comunidade para contribuir com as despesas e oferecer melhores condições aos atletas.
Questionado sobre o apoio recebido atualmente pela equipe, afirmou que os alunos e suas famílias precisam pagar pelos materiais utilizados.
“Os meninos vêm treinar por conta deles, eles compram chuteira por conta deles, meião, essas coisas”, relata.
Na avaliação do treinador, o apoio é insuficiente diante das necessidades do trabalho. Ele acredita que o talento dos jogadores locais poderia alcançar mais oportunidades com investimento e condições de participação em campeonatos.
“Rio Sono poderia estar num outro patamar se tivesse uma equipe profissional aqui”, avalia.
Disposição e rotina de atividade física
Além de orientar os alunos, seu Guilherme conta que pratica atividade física desde a infância. Mesmo quando não realiza os treinos com a equipe, relata que costuma correr ao redor do campo.
“Eu fico correndo em volta do campo, beirando o alambrado pra não estragar o gramado”, diz.
Ao falar sobre seus hábitos, também afirma que evita noitadas e procura se alimentar bem dentro de suas possibilidades. São costumes que ele destaca ao recordar sua trajetória e a disposição para continuar frequentando o campo.
Sem a chave, treinador escala estrutura de ferro
Ao final da entrevista, a equipe presenciou uma situação preocupante. Seu Guilherme precisava entrar no estádio, mas estava sem a chave do acesso. Para chegar à parte interna, escalou a parede de ferro das arquibancadas.
Durante a subida, relatou ter labirintite e sentir tontura. Ele próprio alertou para o perigo: “Se eu cair aqui de cima, eu posso até quebrar uma perna, um braço, né?”.
O momento registrado chama atenção para o risco de queda enfrentado pelo treinador, prestes a completar 101 anos, e para a necessidade de garantir um acesso seguro ao local onde desenvolve suas atividades.


Para a coordenação do projeto Jovens Comunicadores da Amazônia, valorizar seu Guilherme envolve reconhecer sua contribuição e oferecer condições adequadas para a continuidade do trabalho.
Uma história que merece visibilidade
A reportagem integra as atividades do projeto Jovens Comunicadores da Amazônia e servirá como referência para jovens de Rio Sono na produção de matérias escritas e conteúdos audiovisuais sobre suas comunidades. Trechos da entrevista também serão divulgados no Instagram do projeto @jca.riosono.
Ao registrar a história de seu Guilherme, a iniciativa busca preservar a memória esportiva de Rio Sono, valorizar o trabalho com crianças e adolescentes e ampliar a discussão sobre incentivo e condições de acesso ao esporte.

Às vésperas dos 101 anos, o senhor “Véi Guilherme” continua chegando ao campo com a vontade de ensinar. Sua dedicação aparece nas lembranças dos atletas que acompanhou e nos jovens que hoje aprendem sob sua orientação.

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