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    Rede latino-americana une saberes para regenerar florestas e comunidades

    Por Núbia Dourado15 de maio de 20254 minutos de leitura
    A Aliança para Restauração Biocultural e Ecológica na América Latina conecta atores locais e globais em um “laboratório vivo” para atuar em cinco biomas estratégicos — Amazônia, Andes, Cerrado, Mata Atlântica e Chaco

     

    Uma união para recuperar ecossistemas e fortalecer culturas tradicionais em cinco biomas estratégicos – Amazônia, Andes, Cerrado, Mata Atlântica e Chaco. Esse é o objetivo da Aliança para Restauração Biocultural e Ecológica na América Latina (ARBEAL). Trata-se de uma rede que agrupa esforços internacionais para regenerar áreas críticas da América Latina, combinando ciência de ponta com conhecimentos ancestrais.

    A ARBEAL foi lançada este mês na Reserva Matutu, em Minas Gerais, durante o Matutu Summit, evento que reuniu organizações indígenas, instituições de pesquisa e representantes dos setores público e privado. “A Aliança nos permite potencializar ações já em curso e ampliar seu impacto positivo. Aqui lançamos as primeiras sementes, conscientes de que a regeneração leva tempo”, afirma Manno França, presidente da Fundação Matutu, uma das idealizadoras da iniciativa.

    A aliança reúne entidades como a Acción Andina, Conservation International, The Nature Conservancy e Ecological Health Network, além de lideranças indígenas Huni Kuin (Acre, Brasil) e Shipibo (Amazônia Peruana). Entre os destaques estão projetos de restauração ecológica em larga escala, programas de pagamento por serviços ambientais, viveiros comunitários e ações de pesquisa científica e monitoramento da biodiversidade.

    Meio ambiente e saúde

    A relação entre conservação ambiental e saúde humana foi um dos pontos de destaque do encontro. O epidemiologista Philip Weinstein, da Universidade de Adelaide (Austrália), apresentou estudos que apontam aumento de até 6% no risco de malária para cada 1% de floresta suprimida na Amazônia. “O desmatamento altera o lençol freático, saliniza rios e elimina predadores naturais dos mosquitos”, explicou. “A restauração pode reduzir diretamente a incidência de doenças infecciosas.”

    Resultados já são visíveis em diferentes territórios. “Até 2025 restauramos 100 mil hectares na Mata Atlântica, combinando geotecnologia, viveiros e saberes tradicionais para gerar renda e consolidar cadeias extrativistas”, afirma Ludmila Pugliese, da Conservation International.

    Em Minas Gerais, 1.791 propriedades aderiram ao Pagamento por Serviços Ambientais, que remunera a proteção de nascentes, o sequestro de carbono e a preservação da fauna e flora. “É uma virada de chave: em vez de punir quem degrada, passamos a valorizar quem conserva”, diz Leonardo Ivo, da The Nature Conservancy.

    Lideranças indígenas Mapu Huni Kuin e Don Mateo Shipibo (Foto: Lakshmi Bayer)

    A dimensão biocultural se materializa na criação da Reserva Intercultural Huwa Karu Yuxibu, projeto coordenado por Mapu Huni Kuin que, com o apoio da Fundação Matutu e da Acción Andina, adquiriu 2.450 hectares próximos a Rio Branco (AC). Ali, o resgate da língua e dos rituais tradicionais convive com práticas agroecológicas, hortas de espécies nativas e viveiros comunitários e um centro de terapias indígenas. “Protegemos a floresta para fortalecer a saúde e a cultura do nosso povo”, afirma Mapu Huni Kuin.

    Combate ao fogo e laboratórios vivos-piloto

    Com raízes em 1984, a Reserva Matutu compreende hoje cerca de três mil hectares de Mata Atlântica e mantém matrizes genéticas que resistem a mudanças climáticas e queimadas. Para enfrentar esses riscos, em 1993 foi criada a Brigada Matutu — grupo voluntário comunitário que combateu mais de 400 incêndios florestais e hoje inspira brigadas comunitárias no Acre e na Argentina. “Nossa visão é expandir essa aliança, conectando pessoas e iniciativas que coloquem a mão na massa pela restauração”, afirma Manno França

    Até dezembro serão inaugurados cinco projetos-piloto nos Andes, na Amazônia, na Mata Atlântica, no Cerrado e no Chaco, permitindo que pesquisadores, agricultores e lideranças indígenas adaptem metodologias em campo. Workshops regionais (junho a novembro) calibrarão indicadores e planos de ação, seguidos por chamadas públicas para integrar universidades, ONGs e setor privado. A partir de dezembro, relatórios semestrais divulgarão dados sobre biodiversidade, qualidade da água e impacto socioeconômico, garantindo transparência e ajustes precisos nas estratégias.

    “Só unindo a sabedoria ancestral ao rigor da ecologia moderna podemos devolver íntegra saúde aos ecossistemas”, reforça James Aronson, da Ecological Health Network. “É esse compromisso conjunto que faz da ARBEAL um exemplo replicável, pronto para inspirar ações de restauração em todo o planeta”, afirma Manno França.

     

    Fonte: Rede Circular

     

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